Pasto Certo, a Forrageira Escolhida por Critério

Gado pastando em pastagem tropical

Escolher a forrageira errada é um erro que dura anos. Diferente de uma cultura anual, em que a safra seguinte permite corrigir o rumo, uma pastagem mal escolhida ocupa a área, consome o investimento de implantação e só revela o problema quando já está estabelecida.

E a escolha costuma ser feita da pior forma possível: pelo que o vizinho plantou, pelo que a loja tinha em estoque, ou pelo nome que se ouviu falar. Não por desleixo — por falta de um lugar onde comparar as opções lado a lado.

O que o Pasto Certo resolve

O Pasto Certo é um aplicativo da Embrapa Gado de Corte, lançado em 2017 e hoje na quarta versão, que reúne informação técnica sobre forrageiras tropicais em um só lugar — as cultivares lançadas pela própria Embrapa e outras de domínio público.

  • 26 forrageiras tropicais, entre gramíneas e leguminosas
  • Mais de 160 características associadas, para comparar cultivares
  • Cálculo da quantidade de sementes necessária para implantar a área
  • Dimensionamento de piquetes
  • Onde comprar sementes das cultivares listadas
  • Gratuito, Android e iOS, com versão web
  • Funciona offline

Guarde o último item, porque ele muda o uso na prática. A decisão sobre pastagem é tomada olhando a área — e a área é justamente onde não há sinal. Um aplicativo de consulta técnica que só funciona conectado acaba sendo consultado em casa, de memória, que é exatamente o problema que ele deveria resolver.

A função que quase ninguém usa e é a melhor

De tudo o que o aplicativo faz, a comparação simultânea entre cultivares é a que mais muda decisão. E é a menos usada, porque a maioria abre o aplicativo já tendo decidido e só quer confirmar.

Recomendo o caminho inverso: chegar sem candidato definido e deixar as características filtrarem. Uma cultivar excelente em produção de massa pode ser inadequada para solo de baixa fertilidade; outra tolerante a seca pode não suportar o pisoteio da sua lotação; uma terceira pode exigir um nível de manejo que a propriedade não tem como manter. Nenhuma dessas incompatibilidades aparece no nome da cultivar — todas aparecem na comparação.

Na minha opinião, é aqui que o aplicativo se paga sozinho, mesmo sendo gratuito: ele transforma uma decisão tomada por indicação em uma decisão tomada por critério.

As características que eu olharia primeiro

São mais de 160 atributos, e olhar todos é o caminho mais rápido para não decidir nada. Se eu tivesse que reduzir a um punhado, começaria por estes — porque são os que costumam eliminar candidatos, e não apenas ordená-los:

CaracterísticaPor que ela elimina candidatos
Exigência de fertilidade do soloCultivar exigente em solo pobre não expressa potencial — e corrigir a área toda pode custar mais que a pastagem
Tolerância a solo encharcadoÁrea de baixada elimina boa parte das opções, e isso não se contorna com manejo
Tolerância à secaDefine se a área sustenta animal no período seco ou se você vai depender de suplementação
Resistência a cigarrinhaPraga que derruba pastagem inteira; a resistência varia muito entre cultivares
Tolerância ao pisoteioPrecisa conversar com a lotação que você pretende usar, não com a atual
Época e facilidade de estabelecimentoDetermina quanto tempo a área fica improdutiva depois do plantio

Prefiro essa ordem porque ela começa pelo que a propriedade tem e não pode mudar — solo, relevo, regime de chuva — antes de olhar o que a cultivar promete. O erro clássico é o oposto: escolher pela produtividade anunciada e depois descobrir que ela pressupõe uma condição que a área não oferece.

As leguminosas, que quase ninguém consulta

Entre as 26 cultivares não há só gramíneas — há leguminosas forrageiras, e elas costumam ser ignoradas na consulta porque a busca mental do produtor já parte de “qual capim eu planto”.

Vale abrir essa parte com atenção por um motivo específico: leguminosas fixam nitrogênio biologicamente, em associação com bactérias do solo. Num sistema consorciado com gramínea, isso significa parte da adubação nitrogenada acontecendo sem compra de fertilizante — o insumo que costuma pesar mais na conta da pastagem.

Não é solução automática. Consórcio exige manejo diferente, a leguminosa tem exigências próprias de solo e a proporção entre as espécies precisa ser mantida ao longo do tempo, senão uma domina a outra. Mas é exatamente o tipo de decisão que se beneficia de comparar características lado a lado antes, em vez de descobrir a incompatibilidade com a área já plantada.

Na minha opinião, é a parte do aplicativo com maior distância entre o valor que tem e a atenção que recebe.

O uso que faz diferença é no meio do pasto

Já que ele funciona sem internet, o uso mais rentável não é o de escritório — é o de campo, com a área na frente.

Estar no piquete muda as perguntas que você faz. Olhando a área, você repara que aquela baixada encharca, que aquele trecho de encosta tem solo mais raso, que aquele canto sombreado nunca fechou. São informações que não passam pela cabeça sentado em casa e que mudam a cultivar recomendada — às vezes indicando cultivares diferentes para partes diferentes da mesma propriedade, em vez de uma só para tudo.

Recomendo fazer a primeira consulta caminhando, e registrando por trecho. É uma hora de trabalho que costuma render uma decisão bem melhor que a média.

O cálculo de sementes evita os dois erros de sempre

A função de cálculo da quantidade de sementes parece banal e resolve um problema caro dos dois lados.

Comprar semente a mais é dinheiro parado no galpão, com validade correndo. Comprar a menos é pior: a implantação falha, o solo fica exposto, a planta daninha ocupa o espaço que a forrageira não ocupou, e a correção custa mais que a economia da compra. Nos dois casos o prejuízo aparece meses depois, longe da decisão que o causou.

Vale conferir o cálculo contra o valor cultural da semente que você vai comprar de fato — ele varia por lote, e é o que traduz “quilos de semente” em “sementes viáveis por metro quadrado”.

O aplicativo também indica onde encontrar sementes das cultivares listadas, e isso resolve um problema silencioso: descobrir, depois de escolher por critério, que a cultivar decidida não está disponível na sua região. Saber isso antes evita o desfecho mais comum de toda essa análise — chegar na loja, não encontrar o que se escolheu, e levar o que tem.

Se for esse o caso, prefiro voltar ao aplicativo e refazer a comparação entre as opções realmente disponíveis, em vez de aceitar a substituição sugerida no balcão. Duas cultivares com nome parecido podem ter comportamento bem diferente nos atributos que eliminaram as outras candidatas.

O que ele não faz

  • Não substitui análise de solo. A exigência de fertilidade só faz sentido comparada com o que sua área tem — e isso vem do laboratório, não do aplicativo.
  • Não recomenda adubação nem correção. Dose de calcário e adubo é assunto para responsável técnico que conheça a análise da sua área.
  • Não cobre todas as forrageiras. São 26 cultivares; o que estiver fora da lista continua exigindo pesquisa em outra fonte.
  • Não decide lotação nem manejo de pastejo. Ele orienta a escolha e a implantação, não a condução do rebanho.

Por onde eu começaria

Antes de abrir o aplicativo, eu levantaria três informações da propriedade: o resultado da última análise de solo, quais áreas encharcam na chuva forte, e qual lotação você pretende manter. São as três respostas que fazem o filtro funcionar — sem elas, a comparação entre 26 cultivares vira uma lista de nomes.

Com isso em mãos, a consulta leva poucos minutos e deixa duas ou três candidatas em pé. Aí, sim, vale levar essas candidatas para a assistência técnica local ou para quem já planta na região — a conversa deixa de ser “o que eu planto?” e passa a ser “entre estas três, qual se comporta melhor aqui?”. É uma pergunta muito mais fácil de responder bem.

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